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23 de Novembro de 2017

Um conselho aos graduandos

Pessoal, postei esse texto no facebook e decidi compartilhar também com os meus amigos jusbrasileiros

Estevan Facure, Advogado
Publicado por Estevan Facure
há 6 meses

Um conselho aos graduandos

Após receber várias mensagens de graduandos (dos mais variados cursos) depois de uma postagem no facebook, resolvi compartilhar a mensagem com vocês. Segue o texto em sua íntegra:


Por algum motivo absolutamente desconhecido, decidi compartilhar com vocês alguns trechos da minha vida acadêmica e profissional.

Quem ler até o final ganha um sonho de valsa.

Apesar de eu ter cursado Direito, acredito que trechos dessa narrativa podem ser uteis a qualquer um, independentemente do curso.

Ps. Não posso utilizar a palavra “estudante” para substituir “graduando”, pois atualmente, no mercado de trabalho, eu estudo muito mais que na época da minha graduação.

Se você ainda está na graduação, sugiro que leia até o final.

Na época em que eu passei no vestibular eu estava acostumado a uma rotina de estudos de 5 a 8 horas por dia, todos os dias (nada muito impressionante, só estou narrando fatos). Depois de passar no vestibular, ao ingressar na faculdade, essa rotina de estudos caiu vertiginosamente. As matérias eram muito fáceis e eu não dava bola o suficiente para “sociologia jurídica”, “economia”, etc.

Ps. Aqui vale destacar que as matérias do primeiro ano são muito introdutórias e, embora essenciais para a formação de um profissional, desanimam muito o estudante, pois pouco guardam relação com o mercado de trabalho. Uma dica: “foque na carreira, não na matéria chata. Não desista do curso!”.

(Quantas e quantas vezes eu não pensei em desistir do curso).

Nesse primeiro ano de faculdade minha vida foi muito mais festa do que estudos propriamente ditos.

Sendo cutucado diariamente pela minha consciência, decidi arrumar um estágio na área jurídica para já ter algum contato com o mercado de trabalho. Consegui um estágio no Fórum da cidade de Uberlândia, em uma das varas criminais.

Meus amigos, que desilusão... Como eu não sabia NADA de Direito ainda, me colocaram para numerar as páginas dos processos (que, à época, eram físicos – papéis, e hoje são eletrônicos).

Absolutamente frustrado em ter que ir ao fórum numerar páginas, eu desisti do estágio logo no segundo mês, sem sequer avisar a escrivã responsável. Pois é, que arrependimento e que covardia da minha parte. Até hoje eu tenho vergonha de passar nessa determinada vara, muito embora eu tenha certeza de que ninguém de lá se lembre de mim.

Ps. Hoje, olhando para trás, eu percebo que aprendi nesses dois meses muito mais do que eu imaginei, pois só de ficar no ambiente do fórum, muito me acrescentou para entender os procedimentos internos da secretaria/gabinete. Eu não era maturo o suficiente para entender aquilo à época.

Ps. Obrigado, Lucas Taglialegna, por me arrumar meu 1º estágio.

No segundo ano de faculdade, eu arrumei um segundo estágio, desta vez na Delegacia de Polícia Civil, local onde eu trabalhei com a Dra. Gabriela Damaceno e aprendi muito sobre Direito Penal. Apesar de ser um estágio voluntário e apenas 2 vezes por semana, aprendi muito e fiz novas amizades para o resto da minha vida.

Ps. Sempre é bom ver de perto o outro lado da moeda, ou seja, a realidade e a vida de um ser humano que enveredou para o mundo do crime. Nem tudo é tão simples quanto parece, amigos. E nós somos muito mais hipócritas do que imaginamos, com os nossos comentários e nossas ações.

Ps. Muito obrigado Regis Cardoso, pelo meu 2º estágio.

Enquanto eu estagiava na Delegacia, prestei o concurso de estagiário do Ministério Público de Minas Gerais, no qual fui aprovado.

Passei a trabalhar na Promotoria do Patrimônio Público, com o Dr. Luiz Henrique Borsari, onde eu vi o lado podre da política uberlandense, onde eu conheci os “bandidos ricos”, ou seja, pessoas que sempre tiveram de tudo de bom e de melhor e, mesmo assim, também enveredaram para o mundo do crime. Considero esses infinitamente piores do que os que conheci na delegacia de polícia.

Aprendi bastante no MPMG e também fiz muitos contatos e novas amizades.

Saindo do MP, prestei o concurso da Defensoria Pública de Minas Gerais, no qual fui aprovado. Meus amigos, que ambiente de trabalho lindo, que pessoas extraordinárias. Nunca vi um Órgão Público funcionar tão bem, com pessoas de bem com a vida e que fazem de tudo para ajudar o próximo.

Em suma, fiquei amigo de 80% dos defensores, os quais sempre me trataram com muito respeito e carinho e aprendi mais nesse um ano de Defensoria do que aprendi nos 5 anos de graduação, tanto do ponto de vista técnico-jurídico quanto de visão de mundo. Neste ponto, conheci a realidade do povo uberlandense, realidade esta que me passou despercebido, pois eu estava completamente absorto na minha própria realidade perfeita (vivendo em uma bolha).

Cinquenta anos se passarão e eu ainda me lembrarei com detalhes alguns dos casos que trabalhei na Defensoria Pública.

Minha graduação chegava ao fim e eu não queria sair da Defensoria Pública, pois ainda estava aprendendo tanto todos os dias. Desta forma, decidi postergar o meu TCC por mais 6 meses e continuar estagiando.

Segundo minha namorada, eu estava tentando fugir da realidade do mercado de trabalho, hahahaha. E, de fato, acredito que isso não seja totalmente inverídico.

Após a conclusão e o final o estágio, o desespero.

O que eu faria agora, o que seria de mim? Tentaria a vida de concurseiro? Advogaria? Venderia coco na praia? Viraria budista e viveria com o mínimo existencial possível? Hahaha.

Minha sorte é que ao meu lado eu tinha a Camilla Lellis, empreendedora nata, deveras estudiosa, absolutamente brilhante e que não entra em “desesperos emocionais” como eu.

Ao lado dela, fundamos o nosso escritório.

Eu sempre com muito receito e sempre imaginando o pior, mas também sempre em busca de inovações e resultados. Me surpreendi muito com o deslinde do nosso escritório.

Nos primeiros meses, as contas não fechavam, os boletos chegavam e meu desespero crescia. Neste ponto, fui MUITO ajudado pela melhor mãe do mundo Katia Gomes, que assumiu parcialmente nossas despesas até que o escritório começasse a se sustentar.

Ainda falando sobre os primeiros meses de escritório, como nós tínhamos toda a estrutura pronta, mas poucos clientes, peguei dezenas de causas pro-bono (gratuitas) para ajudar os mais necessitados, inspirado pelos ensinamentos e princípios que aprendi na Defensoria Pública.

Hoje, o escritório vai bem e eu consigo respirar melhor.

Me encontrei na profissão de advogado e nem cogito a possibilidade de prestar concurso público.

Claro que o futuro é incerto e tudo pode mudar, mas enfim...

Ah, e essa semana eu fui convidado por minha amiga de sala, Karina, a participar semanalmente do grupo de advogados que orientam os estagiários no Escritório de Assessoria Jurídica da Universidade Federal de Uberlândia.

Como os meus estudos foram pagos pelo Estado, nada mais justo do que eu fazer essa contraprestação gratuita para ajudar os menos afortunados.

Atualmente, também faço parte das Comissões da OAB: da Jovem Advocacia e da de Direito de Família, onde também fiz novas amizades e contatos que perdurarão para o resto da vida.

Então, pessoal, além de estudar, vocês devem sempre fazer novos contatos. Se possível, participem do Diretório Acadêmico de suas Faculdades, participem dos eventos, palestras, grupos de estudos e tudo o que aparecer na frente.

Não passem desapercebido! Façam barulho! Ainda que disso advenham algumas inimizades!

Como disse Woody Allen: “80 percent of sucess is in life is just showing up”.

Numa tradução grotesca: "80% do sucesso da vida conquista-se simplesmente ‘aparecendo’/fazendo-se presente”.

No final, todos os pontos se alinham. Acreditem.

Não digo isso como alguém que conquistou tudo o que quer na vida, muito pelo contrário, ainda estou muito longe disso, mas sinto que estou no caminho certo.

Avante, meu povo.

...

Nota: Depois do comentário da Carolina Faleiros neste post, resolvi escrever essa parte final sobre o quanto" não foi fácil "(nem tudo são flores).

Na semana passada, eu fui convidado para discursar na OAB para os novos advogados de Uberlândia que estavam recebendo a Carteira da Profissional e num trecho da minha fala eu disse:

“Meus nobres colegas, para aqueles que ainda não têm contato com o mercado de trabalho, eu adianto: O mercado de trabalho é cruel e insensível! Eu mesmo já cheguei ao ponto de chorar de frustação, mais de uma vez, em tão pouco tempo de carreira. Mas eu acredito que são nesses tempos de crise que o profissional mostra a sua verdadeira natureza, ou seja, se vai desistir dadas as circunstâncias negativas ou se vai se reerguer, cada vez mais forte e mais preparado.

Portanto, eu desejo a vocês muito sucesso, mas também desejo alguns percalços, pois sei que se vocês nasceram para exercer essa bela profissão, esses contratempos servirão como verdadeiros degraus em suas carreias.”

Link da postagem: https://www.facebook.com/estevanfacure/posts/543863039279157


Até o próximo tema, pessoal.

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3 Comentários

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Que belo relato, Estevan. continuar lendo

que bom que gostou, Natália! continuar lendo

Parabéns Estevan Facure, poucas são os graduados que possuem o seu desprendimento para contar o que um graduando passa ao sair da Faculdade de Direito. Sonhamos com autos salários e nos conformamos com 3 salários mínimos. Sou professora aposentada e a cinco anos graduada em Direito e ainda nem a minha carteira da OAB eu consegui, o último exame da OAB que fiz foi em 2015. Passei 6 vezes na primeira fase e faltavam décimos para a 2ª fase. O último que fiz, o meu VADE estava anotados a lápis as súmulas e algumas remissões, tudo seguindo o edital, até levei a cópia do edital, para provar que estava seguindo o edital. Mesmo assim a fiscal confiscou o meu mini vade de tributário e tive que fazer a prova com o VADE MECUM geral sem nenhuma anotação, mesmo assim consegui um 4.8.

Eu ainda não desisti apenas dei-me um tempo, estou estudando outras coisas, como desenvolvimento pessoal, inteligencia emocional e autoestima. Ainda bem que não dependo do salário de advogada, porque já tenho um salário.

Vou retornar os meus estudos, começando do zero, como se nunca tivesse feito a OAB, tenho certeza que vou conseguir a minha vermelhinha, e vou estudar até consegui-la.

Boa sorte pra todos, e não desista de estudar, estou fazendo o curso Advocacia sem fronteira do CERS. continuar lendo